Experimento mil calças, centenas de blusas e opto pelo vestido. Passo pelas ruas observando atentamente cada detalhe, as retas paralelas, as flores que ainda irão brotar e até a formiguinha inquieta. Sou uma eterna turista na rua em que sempre vivi.
Pego o mesmo ônibus de sempre, fico olhando vidrada o abstrato tomando velocidade. Isso da uma vontade gigantesca de escrever algo, mas nunca tenho lápis ou papel. Logo escrevo na mente milhares de pensamentos bonitos.
Penso no quanto é bom ser essa criatura meio chata, meio idiota e até gosto um pouquinho mais de mim assim. Mesmo com minhas crises e manias eu aprendi a me suportar e hoje até convivo bem com as múltiplas Camilas.
Já me acostumei a conviver com a mania de organização intensa passageira. Limpa, limpa, limpa, lava, lava, lava, seca, seca, seca... Fico exausta, porém feliz em ver tudo em ordem e depois quando a desordem volta, vivo bem assim no meio da bagunça mesmo e curto uma preguiça danada.
Nem sequer me importo mais em ficar uma hora pintando as unhas para depois olhar bem fixamente e chegar a conclusão de que minhas unhas ficam bem melhor sem esmalte.
Às vezes até acho normal a minha fome de coisas que não existem, meus sentimentos intensos e meu frio exagerado. Passo horas reclamando banalidades e no fim chego a conclusão de que tudo é perfeito assim. Olho meu reflexo no vidro e fico feliz em ver essa harmonia desconexa, todas aquelas amarguras, tristezas e descontentamentos ficando pelo caminho.

