
Os dias, as semanas, os meses e os anos passam e eu continuo a mesma, embora completamente diferente. Continuo buscando e correndo sempre para o lado mais difícil da vida, querendo encontrar respostas que não existem. Mesmo mudando tanto, continuo com aquelas manias que eu nunca deveria conservar. Ainda me vejo juntando os seus caquinhos e eu que pensava que você só queria me trazer felicidade, me vejo aqui juntando inúmeros caquinhos, que me lembram qualquer coisa sobre você, mas continuam não me levando a lugar algum. E cada um desses pedacinhos de você, que vez ou outra deparo por ai, me fazem transbordar de saudade e dor. Já perdi as contas dos dias, dos caquinhos, dos choros e até mesmo do tamanho da minha dor e arrependimento. Continuo encontrando no sofrimento um ótimo ambiente para me aconchegar e me inspirar. Mas hoje num ato súbito de vida, joguei todos os teus caquinhos pro ar. Milhares deles, vários pedacinhos de você soltos em cada cantinho, a perder de vista. Foi como me libertar de correntes, que eu mesma havia criado. Fiquei cheia de vida, louca para retomar meus sintomas de felicidade. E eu quis novamente cantar e sair por ai, e usar aquele vestido rodado, tomar sorvete, ir naquele show que nunca tive a oportunidade, rir para os cães e para os bebes na rua, tomar um banho de chuva e tudo mais. Finalmente eu quis viver de novo, chutar as tristezas vãs e encontrar novos rostos, sorrisos e companhias para seguir distraindo a vida. E agora com a total consciência de que posso vir a encontrar caquinhos teus por ai, mas com a sabedoria de que mesmo se um dia eu viesse juntar todos eles e transformar tantos caquinhos em uma só coisa, o meu sacrifício, o tempo e a dedicação gasta não compensariam em nada. Aceitei por fim, que há determinadas coisas, assim como os caquinhos, que por mais que você dê tudo de si para voltar a sua antiga forma, não a cola que transforme.